Devido à grande repercussão em toda internet e até junto aos colegas de época de graduação referente ao tema de união ou separação da graduação em Licenciatura e Bacharelado em Educação Física (EF), e complementando o Texto do Professor João Moura, venho nesta publicação externar a minha opinião sobre o tema e lançar algumas perguntas aos amigos acadêmicos e profissionais.  Saliento que o texto irá refletir a minha opinião sobre o tema, levando em consideração a diversidade de acadêmicos com os quais fiz disciplinas em diversas turmas durante minha graduação, bem como experiência como representante acadêmico no Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão (CEPE) da FURB (Blumenau).

Pra começar, já posso falar que este meu texto ao término da leitura venha a causar maior polêmica do que o do João, mas vamos lá, acompanhe o raciocínio comigo? Este texto vai falar um pouco sobre cultura atual e imagem do Profissional de Educação Física (PEF), ética profissional, serviço prestado e principalmente questionamentos para que você possa enriquecer o debate com sua opinião.

Vou começar falando de cultura do PEF e dos clientes/alunos, vejo isso em várias academias, e inclusive nos acadêmicos da FURB que frequentavam a sala de musculação (TRP) da instituição, onde por 2 anos e meio atuei como Monitor das disciplinas de Prática Desportiva e também fiz 1 ano de estágio obrigatório. Ao realizar as anamneses, nos deparávamos com objetivos diversos, emagrecimento, tonificação, hipertrofia, treinamento para complementar uma atividade laboral, para complementar um esporte praticado. Vamos pra algo mais interessante? Fisiopatologias, desvios posturais, reabilitação, vou parar por aqui, mas poderia continuar. Já conseguiram entender a grande demanda de conhecimento necessário em uma sala de musculação de uma Universidade com um público menos heterogêneo do que vemos nas academias Brasil afora?

Agora imagine sair de uma graduação de 4 anos e “cair de paraquedas” em uma academia com publico totalmente heterogêneo? Do idoso cardiopata ao adolescente fã do “Zyzz” (Fuark Bro), seguidores de vloggers na internet, etc. Não bastassem as falhas das universidades com relação à montagem da matriz curricular bem como a diferença didática entre os professores, aliado ao comprometimento destes em transmitir o conhecimento que faz parte do conteúdo da disciplina X, e principalmente o interesse do acadêmico em estudar sobre o conteúdo da referida disciplina, será que ele vai fazer alguma hora de estudo para aqueles conteúdos? Vai se esforçar em aprender e compreender o conteúdo? Ou vai decorar pra tirar 6 nas 3 provas e passar? Ou tirar menos que isso e choramingar ao final do semestre reclamando que o professor não deu 0,2 pontos pra passa-lo?

Afinal, ele vai ter que pagar a disciplina de novo (Particulares) ou ficar mais tempo ainda (Federal). A preocupação do acadêmico muitas vezes está no bolso e no seu tempo do que em assimilar conteúdos diversos e de interesse da formação profissional, pessoal e social que poderão lhe dar grande auxílio na sua atuação profissional, sem contar os acadêmicos de 2ª, 3ª fase que acham que detém todo conhecimento do universo e já está prestando desserviço como personal.

Os relatos acima servem para podermos começar uma discussão fundamental. Se não leu os dois últimos parágrafos com atenção, por favor, releia-os antes ou depois de ler a discussão abaixo. Onde eu quero chegar com esses exemplos? Em vários pontos! Ética, cadê a ética do Profissional de Educação Física, ou nas áreas de atuação da EF? Pergunto isso pois a lei regularmente estágio não obrigatório a partir da 5ª fase do curso de bacharelado, mas vocês são atendidos nas suas academias (praticantes), dividem a sala (PEF’s formados e estagiários de 5ª fase em diante) com pessoas que tiveram uma carga horária de 72h de anatomia, biologia humana (básico do básico do básico) sendo que umas 15 horas por baixo são utilizadas para revisar conteúdos esquecidos do Ensino Médio. Onde está o erro? No acadêmico que recém ingressou no curso em buscar atuação já nas primeiras fases? No proprietário da academia que os contrata para poder ter mais lucro? Afinal não necessita de carteira assinada e aceitam facilmente um salário de R$400,00.

Eu vejo uma grande quantidade de pessoas que reclamam que um dançarino precisa cursar disciplinas totalmente fora da área de atuação que ele quer (dança), o marombeiro que ingressou no curso, o que ele quer saber de crescimento, desenvolvimento e aprendizagem motora? A mocinha com o corpinho bonitinho que está graduando na Universidade da exibição e do corpo sarado, o que quer saber de processos pedagógicos? Concepção critico-emancipatória? Que é isso? Não estou generalizando, estou apenas citando exemplos de estereótipos que vemos nos cursos de Graduação. Existem sim várias garotas com o corpo sarado que são extremamente dedicadas ao aprendizado, marombeiros extremamente dedicados na atuação em Musculação altamente interessados nas disciplinas biológicas, fisiológicas, metodológicas, porém estes casos são meros e infelizmente, raros, ao menos no convívio universitário que tive. Neste ponto a separação entre bacharelado e licenciatura parece ser o mais conveniente.

O que mais ouvi durante a graduação foi, o que me interessa saber disso? De que isso vai me servir? Meu ramo de atuação é outro, não quero saber dessa palhaçada! “Tô” pagando pra ter uma aula dessas que não faz diferença pra mim. Isso enquanto o curso ainda tinha as duas formações na mesma grade, e olha que eu via um interesse muito maior em todas as disciplinas dos que focavam sua área de atuação na Licenciatura com relação aos que focavam sua área de atuação como Bacharéis, que pouco se importavam com as disciplinas voltadas para a licenciatura. Presenciei raros casos de acadêmicos que tinham total interesse na área de bacharel, mas ao fazer disciplinas da licenciatura se identificaram e voltaram-se para a atuação em escolas e sentem-se realizados.

Mas Jefferson, você está enrolando a minha cabeça, no começo do texto parecia que você defendia a separação, no ultimo parágrafo parece que defende a unificação, afinal qual é a tua? Qual é a minha?! Eu lhes pergunto, qual é a nossa?! Raciocinem em cima de diversos exemplos que eu dei ao longo do texto, analise casos que acontecem na sua universidade, na academia que você trabalha, analise a Educação Física em nosso país. Estamos preparados eticamente para assumirmos o compromisso do aprendizado? Ou somos apenas mais um que reproduzirá informações e receitas de bolo como micos adestrados? A Educação Física em todas suas esferas, Conselho, Universidades, Cursos de Graduação e principalmente acadêmicos e profissionais estão dispostos a mudar a realidade do cenário da profissão? Estão realmente interessados em dar o melhor de si? Queremos ser valorizados tanto quanto profissionais da área Médica, em minha opinião somos muito mais importantes do que eles em alguns quesitos, pois cuidamos da saúde, temos a função e o poder de prevenir, reabilitar, fazer a manutenção, somos, ou deveríamos ser anteriores aos médicos na vida das pessoas, mas infelizmente a realidade na maioria dos casos é diferente.

A graduação em medicina tem 6 anos de duração, ao término da graduação eles optam por uma especialização e vão fazer residência médica na área escolhida ou fazem um curso de pós-graduação lato-sensu (especialização), há também a opção de não fazer nenhuma especialização e se tornar um médico generalista, mas a grande maioria opta por uma especialização, ortopedia, endocrinologia, neurocirurgia, pediatria, etc. A EF mesmo com suas formações em cursos distintos já não oferece um curso completo no âmbito educacional, biológico, social, gestor e profissional, tendo o acadêmico que buscar em cursos complementares informações específicas para sua atuação, sejam na natação, ginástica de academia, musculação. Imagine de um curso, na realidade ética e profissional atuais da EF, contemplando as duas formações em um período de 4 anos. Talvez uma alternativa seria expandir o tempo de duração deste curso unificado para 10 ou 11 fases, mas ai é disputa de mercado entre as universidades, quantos se disporiam a cursar 11 fases sendo que tem outra instituição que lhe concede o título em 8? Essa foi uma discussão muito grande na hora de aprovar a nova matriz curricular do curso de EF da FURB.

Nós precisamos entender a grandiosidade da área de atuação do PEF, não é algo simples conseguir adquirir conhecimento e informação em tamanhas áreas, no próprio bacharelado existem áreas totalmente distintas que terão a atuação de diferentes profissionais que tiveram exatamente a mesma formação de graduação (no caso de formados na mesma matriz curricular, da mesma instituição, com os mesmos professores). Por isso eu digo que temos que entender a grandiosidade da nossa área, e entendermos a nossa posição perante a isto, será que somos tão diferenciados academicamente que podemos atuar um rol enorme de áreas tendo formação em um curso de 4 anos? Vale a pena estudar 4 anos, mais 2 de especialização X, mais 2 da especialização Y, mais 2 da especialização H, e dividir espaço com o Personal da 3ª fase? E olha que o risco de ele ter mais clientes que o 3x especialista é extremamente grande, tendo em vista a diferença do valor cobrado por hora/aula. Mas quem dos dois é o mais preparado?

Cadê o CONFEF? Cadê o CREF? Onde está uma regulamentação eficiente e voltada para a QUALIFICAÇÃO profissional? De que adiantaria uma regulamentação eficiente se a atuação irregular da profissão não é investigada pelos conselhos? Pra quê pagar anuidade? Apenas pra colocar o seu nº do CREF no cartão de visitas? O que acontece com pessoas sem formação atuando na área médica? E na Educação Física? Quantos marombeiros dão assessoria e consultoria via internet? O problema não está em um curso específico para bacharel, outro específico para licenciatura ou um curso que dará formação nas duas áreas. Infelizmente o problema é muito maior, na minha opinião há de se ter uma completa revisão de valores, princípios e principalmente na formação do PEF, aliado a um conselho que atue vigorosamente, beneficiando os profissionais, delineando áreas de atuação em cima de cursos de especialização, fora a necessidade de união dos PEF’s e principalmente respeito para com os outros e respeito para com a profissão, vejo muitas pessoas “prostituindo” a profissão cobrando valores extremamente baixos pelos serviços prestados, nivelando por baixo o piso salarial dos profissionais.

A atual situação me parece que a EF é um grande “quebra galho” para a atuação profissional de muitos, pois se não deu certo na academia, tento personal, se não consigo sucesso no personal, vou pra escola, se não der certo na escola, vou “trampar” em um escritório, vou ser corretor de imóveis, ou seja são literalmente pulos de galho em galho na tentativa de se dar bem em alguma delas (para grande parte dos PEF’s). Mas Jefferson, com tantas áreas de atuação como a pessoa vai saber o que ela quer se não experimentar? Horas, mas não é pra isso que deveriam servir os estágios obrigatórios nas Universidades? Experimentar, vivenciar? Quantos dos seus colegas pediram pra um amigo formado assinar as horas pra ele passar na disciplina sendo que nunca apareceu no clube, academia ou seja onde for o campo de estágio?

Há de se ter uma reflexão muito grande na nossa área, e uma mudança de paradigmas ainda maior, há uma grande facilidade em adentrar a um curso de graduação em EF, mas quantos destes se identificam pela profissão? O nível de evasão na minha turma foi de mais de 60% nos 3 primeiros semestres. Não desqualifico quem entra pela 3ª chamada do histórico escolar, mas quem esta mais afim do curso? A pessoa que estuda meses, anos, pra um vestibular concorrido e passa, ou quem passa na 3ª chamada do histórico? Por isso eu digo que deve existir uma reformulação na área pois a facilidade de adentrar em um curso de graduação pode ser benéfica ou maléfica, e no nosso caso entendo ser a segunda opção, por isso vemos tamanha falta de ética profissional, tamanhas aberrações acontecendo Brasil a fora, tamanha desvalorização da profissão com ex-jogadores de futebol ministrando aulas de Spinning.

Há um preço a se pagar para uma valorização da área e uma adequação na formação profissional, quem está disposto a pagá-lo? Apenas os APAIXONADOS pela EF, única e exclusivamente os que têm responsabilidade, respeito e amor pelo que fazem, são estes que nos moldes atuais de formação do PEF buscam conhecimento nas obras clássicas, no artigos mais recentes, buscam saber muito de uma área específica e um pouco das outras também, que é fundamental. Mas estes estão dividindo espaço com pessoas despreparadas, descompromissadas, que viram na EF uma possibilidade de “ganhar” dinheiro fácil, e quando descobrem que isso não existe, conseguem através da sua pífia atuação seja na área que for, desmoralizar a EF.

É um tema difícil, pois são muitas as linhas de raciocínio a serem seguidas, muitos são os argumentos para ambas as partes, possivelmente meu texto não está seguindo uma linha correta de associação entre os temas no decorrer dos parágrafos, mas o que eu quis deixar aqui foi uma reflexão, e gostaria de saber a sua opinião, concorda ou descorda das minhas colocações? Quais ao seu ponto de vista foram corretas e quais foram sem fundamento? É uma loucura ou um caminho? Comente e externe a sua opinião, enriqueça o debate. Muito Obrigado!