Devido ao questionamento de vários seguidores do TEF sobre a minha (João Moura) opinião sobre a divisão de formação do curso de Educação Física entre Bacharelado e Licenciatura, escrevi a carta descrita abaixo com a minha posição e os argumentos em relação a esta decisão. 

Não quero estar construir um consenso ou gerar polêmicas, todavia, o que escrevi é a minha posição particular a respeito. Espero que todos leiam com atenção (o texto é longo) para concordar, discordar ou argumentar contra ou a favor. Só peço que considerem com respeito os meus argumentos. 

Prof. Dr. João Moura.

Carta de posicionamento sobre atuação profissional de licenciados e bacharéis em Educação Física

                 Fiquei por várias vezes pensando em escrever este ponto de vista sobre a questão de Bacharel e Licenciado na Educação Física (EF), mas devido a vários afazeres acabei não realizando. Mas hoje sinto que preciso colocar o meu posicionamento pessoal já que vários seguidores do Treino em Foco (TEF) têm solicitado.

Quero deixar bem claro que este texto versa sobre a minha opinião pessoal (prof. João Moura) e não é um posicionamento oficial do TEF, até porque não sei se o Jefferson de Sousa comunga da mesma opinião que eu.  Gostaria de deixar claro também que meu posicionamento, que assumirei a seguir, não está vinculado a leituras das discussões sobre o tema Bacharel vs Licenciado, sobre questões de ordem legais ou jurídicas, meu posicionamento esta baseado na minha experiência como profissional de EF formado em licenciatura plena a quase 20 anos.

Não quero aqui influenciar ninguém para um lado ou para outro, quero apenas apresentar os meus argumentos para aquilo que penso a respeito do assunto. Sei que a minha opinião talvez seja a mais divergente de todas pois, aqui na minha região, a maioria de meus colegas professores universitários são contrários ao meu posicionamento e acredito que vários acadêmicos e profissionais formados em EF também sejam. Assim, minha intenção não é realizar um texto polêmico para dar “Ibope”, quero sim apresentar o meu ponto de vista e, principalmente, os meus argumentos a respeito. Espero não ser xingado ou escrachado por pensar diferente da maior e gostaria que respeitassem a minha opinião fundamentada, mesmo que você leitor, não concorde com ela.

Bem sou formado em EF pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em Licenciatura pela. Ingressei na UFSM em 1992 e me formei em 1996, ou seja, fiquei cinco anos realizando o curso. Se alguém for observar a grade curricular deste curso na década de 90 quando me formei, verá que o curso era para ser concluído em quatro, e não cinco anos. Pois bem, eu fiquei mais um ano não por ter reprovado ou ter dificuldades em ajustes de disciplinas, eu fiquei mais um ano na formação por acreditar que precisava de mais disciplinas para uma maior segurança de atuação profissional (fiz disciplinas extras). Nesta época eu já pensava o quanto de informação o profissional de EF deveria reter e aplicar para ser um ótimo profissional.

Se pensarmos hoje (2014) quais os conhecimentos necessários aos profissionais de EF para sua atuação?

Voltando ao meu período de formação, tive duas experiências muito importantes com professor de EF em escolas. Em uma delas trabalhei por um ano e meio em uma escola de Santa Maria chamada “Cidade dos Meninos” que muito embora tenha este nome “meninos” também atende as “meninas”. As crianças e adolescentes que lá eram atendidos nesta escola são todos em situação de rua, vivem dias em casa dias fora de casa, dormem pela rua, cheiram cola e todo o processo social que sabemos que ocorre com uma criança abandonada ou semi-abandonada. Para se ter uma ideia, a turma de primeira séria tinha crianças de oito anos junto com adolescentes de 16 anos e “lei” que imperava nas aulas de EF era a “lei da selva”, ou seja, manda quem é mais forte e bate mais. Digo que foi uma ótima experiência, pois ali percebi o quanto as reflexões sociais, pedagógicas e até mesmo didáticas são importantes para atuação no meio escolar. Por várias vezes conversei com professores de extrema experiência e conhecimento sobre processos pedagógicos para buscar ajuda de o que e como fazer meu momento pedagógico com crianças/adolescente com enormes carências afetivas e sociais.

Como fiz NPOR (Núcleo de Preparação de Oficiais de Reserva) ao concluir o curso eu era Oficial R2 (oficial temporário) e professor de EF. No Colégio Militar de Santa Maria (CMSM) surgiu uma vaga para oficial R2 que fosse formado em EF. Pois bem, eu realizei a prova com alguns outros concorrentes do CPOR de Porto Alegre (RS) e passei. Estava lecionando no CMSM com uma estrutura totalmente diferente de qualquer outra escola e com alunos de um nível intelectual muito elevado. Mais uma vez percebi o quanto é necessário os estudos sobre temas sociais, pedagógicos e didáticos que tive na minha formação acadêmica, pois no CMSM eu era muito exigido pela direção.

Nestas duas experiências na licenciatura percebi o valor do estudo e da reflexão, o valor de conhecer as teorias pedagógicas e o quanto eu precisava estudar para me tornar um bom professor de EF. Ao atuar nestes locais reforcei meu pensamento que deveria ter tido maior preparo na minha formação embora eu tivesse sempre “corrido atrás” e realizado vários estágios com supervisão de professores, principalmente no Colégio Agrícola de Santa Maria anexo a UFSM. Nesta época pensava que mesmo cinco anos de formação foram pouco para uma preparação adequada as exigências que tive como educador.

Também atuava em academias de ginástica na cidade de Santa Maria. A partir do meu terceiro semestre comecei a atuar como profissional que assumi turmas de ginástica (ginástica localizada, step e aeróbica) e musculação. Lembrem-se que isso era em 1993 onde não havia CREF e acadêmicos assumiam treinos coletivos ou individuais (musculação) sem supervisão. Lembro nesta época que também todo dia percebia que precisava saber mais, pois as exigências do mercado do fitness me solicitavam e muito.

Como são hoje as exigências do mercado do fitness para os profissionais que atuam neste segmento?

Como é hoje as áreas de atuação dos profissionais de EF? Certamente as nossas possibilidades de atuação cresceram e muito. Podemos atuar com preparadores físicos, professores em escolas, recreacionistas, personal trainers, administradores de espaços esportivos, na mídia esportiva, em grupos de terceira idade, em academias de ginástica, e por ai vai… são inúmeros os campos de atuação do profissional de EF.

O que me perguntava durante a minha formação e logo após ela, ainda continuo me perguntando: Quanta informação o profissional de EF deve ter para atuar com qualidade independentemente da área de atuação?

Vejo que hoje, muito mais do que na época em que me formei, temos muito mais informação à disposição e muito conhecimento “novo” gerado a partir de minha formação (1996) em diferentes áreas, e ainda, são conhecimentos fundamentais para atuação profissional. Como em quatro anos de formação pode-se absorver os conhecimentos básicos (que são muitos) para atuar com qualidade?

Feito essa “introdução” vejo que a distinção de grade de formação entre Licenciados e Bacharéis possibilitou ampliar e aprofundar conhecimentos fundamentais para atuação em duas áreas que entendo atender públicos com especificidades muito distintas.

A atuação escolar como pedagogo exige do professor de EF uma formação sólida e consistente em pedagogia. Vejo que todas as disciplinas associadas à área pedagógica junto com reflexão, debate e leitura sobre as possibilidades de intervenção escolar são fundamentais no preparo de um professor de EF competente. Entender os processos de desenvolvimento cognitivo e psicológico associados à realidade social em que o aluno está inserido é uma necessidade básica do professor de EF. Entender e ser capaz de aplicar diferentes estratégias de ensino que realmente possa contribuir na formação de um cidadão crítico e participativo da sociedade são funções básicas do professor de EF. Desta forma, tento expor a minha humilde opinião fundamentada no sentido de que, sim… este profissional precisa de quatro anos de formação para atuar de forma segura no meio escolar tornando-se um agente de modificação social positiva.

Os conhecimentos inerentes a sua área de atuação são inúmeros quanto aos processos pedagógicos, e ainda, o professor de EF necessita ter conhecimentos razoáveis de fisiologia do exercício, biomecânica, cinesiologia, anatomia entre outros pois, afinal de contas, trabalha no processo educacional com o movimento humano e não com crianças sentadas estáticas em sala de aula. Sem estendermos a discussão sobre a necessidade de conhecimentos de desenvolvimento motor, conhecimento esse básico fundamental para atuação no meio escolar.

Pensando no acadêmico, a formação em quatro anos em Licenciatura com disciplinas, conteúdos e grade curricular adequada pode formar um professor competente e melhor preparado do que no meu tempo de formação em Licenciatura Plena. E por que digo isso? Vamos lá…

Na Licenciatura Plena e em quatro anos de formação, a quase 20 anos atrás quando me formei, tínhamos que dividir nossa atenção entre temas pedagógicos e os demais da mesma maneira. No meu entendimento era muita coisa que deveria ser vista e não era contemplada pois não comportava em uma grade curricular de quatro anos.

E se pensarmos hoje no Bacharel em EF? Quais são suas áreas de atuação e suas necessidades de formação?

Vejo vários colegas falando que a disciplina de empreendedorismo deveria estar contemplada em todas as grades curriculares dos Bacharéis para que os mesmos possam buscar atuações autônomas como personal trainers, abrir academias, formar e gerenciar grupos de terceira idade, gerenciar escolinhas de esportes coletivos, etc.

Também pergunto: Com o envelhecimento da população brasileira, as grades curriculares dos cursos de bacharéis apresentam a disciplina de gerontologia? As grades curriculares atuais apresentam disciplinas de fisiologia geral e fisiologia do exercício, o que é fundamental, mas quantas delas apresentam uma disciplina de fisiopatologia? Como trabalhar com hipertensos, diabéticos, osteoporóticos, portadores de desvios posturais, lupus ou fibromiálgicos (só para citar algumas patologias) se não conhecemos a fundo tais processos fisiológicos da doença?

Muitos questionam que o trabalho de ginástica laboral é de intervenção do profissional de EF e os fisioterapeutas estão “invadindo” esta área. Trabalhei com a disciplina de cinesiologia durante três anos no curso de fisioterapia da FURB (Blumenau) e posso afirmar, eles estão, em termos de conhecimento, melhor preparados que os profissionais de EF. Por quê? Apresentam maior abordagem das disciplinas de cinesiologia, cinesioterapia (tem algum curso de EF com esta disciplina?), traumatologia, ergonomia aplicada entre outras disciplinas fundamentais para o trabalho de prevenção de “doenças do labor”. Sei que vou sofrer críticas mas vejo que a grade curricular, normalmente, portanto nem sempre, fornece melhor competência de conhecimento para atuação na ginástica laboral aos fisioterapeutas.

Com trabalhar no lazer? Que conhecimentos devemos possuir para sabermos trabalhar no horário de descanso das pessoas? Quantas disciplinas nos forneceriam ferramentas para uma boa atuação? As grades curriculares atuais estão apresentando disciplinas suficientes a esse respeito nos cursos de Bacharelado?

E para atuar na academia? No exercício de agachamento… passa ou não o joelho da ponta do pé? Agacha até 90º ou vai “a fundo”? Qual é a carga que vai para a coluna vertebral? Você sabia que no agachamento o montante médio de carga na coluna é de 3,5 vezes a quilagem levantada? O quanto sua coluna suporta antes de estourar disco intervertebral? E se o cliente apresenta espondilolistese ele pode agachar? Com quanto de quilagem? E se for hérnia discal? O que fazemos? Vejam só quanta informação importante da área de Biomecânica… Será que uma disciplina de 72 horas é capaz de transmitir todas as informações básicas importantes para nossa atuação segura no mercado de trabalho?

Tema emagrecimento: Quantas informações consistentes existem hoje a respeito? Quem de nós irá atuar e não receberá um cliente que gostaria de emagrecer? Esse é um objetivo de muita gente onde diferentes metodologias de trabalho para obter esse resultado poderão ser aplicadas em função da pessoa que temos a nossa frente. Temos, ao término do curso de Bacharel um conhecimento básico sólido a esse respeito? Com certeza teremos que intervir neste sentido… emagrecimento!

Acredito que já consegui mostrar meu pensamento. São muitas informações que temos que dominar atualmente para atuarmos com o mínimo de segurança e eficiência a ponto de me questionar se somente quatro anos de formação seriam o suficiente, tanto no bacharelado quanto na licenciatura.

Claro que vocês podem estar dizendo: “Bem, especialização é para a pós graduação”. Vejam bem, não me referi em momento algum a especializar o profissional, me referi sim em conhecimentos básicos para atuar com competência tanto o licenciado quanto o bacharel. E mais, penso que quatro anos por vezes se torna pouco frente à quantidade de informação disponível e necessária para atuação profissional.

O meu ponto de vista fundamentado acima é baseado na minha experiência profissional principalmente pensando no cliente ou no aluno. Na escola ainda ouço muito que o professor de EF é relapso e mau preparado, a celebre frase: “a aula dele é só jogar a bola para os alunos”.  Obter os resultados esperados! Talvez esse seja o fundamento maior das áreas de atuação do bacharel, vejo tanta gente mal preparada que não consegue obter resultados com segurança e eficiência.

Evidentemente, cursos de bacharelado ou licenciatura de quatro não resolverá o problema, mas penso que é um avanço. Um avanço no sentido de os cursos universitários poderem repensar suas grades curriculares e colocarem disciplinas mais focadas na atuação profissional. E antes que reclamem, entendo que o bacharel também necessita de conhecimentos pedagógicos, pois a atuação também é educacional. Da mesma forma que um dentista ao convencer um cliente a usar fio dental esta fazendo um ato educativo, o bacharel ao conseguir fazer com que seu cliente mude seu estilo de vida para mais saudável, desenvolveu um ato educacional, ou simplesmente, fazer com que um cliente conscientize-se em, ao terminar de usar as anilhas no agachamento Smith as coloque no lugar, está também produzindo um ato educacional. Saber como proceder neste sentido, como intervir com o cliente é necessário conhecimento pedagógico. Porém, também entendo que para o Licenciado os conhecimentos pedagógicos deverão ser mais amplos já que se trata de um pedagogo atuando.

Vejo hoje pessoas formadas em licenciatura lutando para atuar em campos do bacharel, ou vice-versa, julgando ser “sacanagem” de quem os está impedindo, CREF/CONFEF ou quem quer que seja. Nestes casos penso sempre:

O acadêmico estudou e se preparou para atuar com primazia no âmbito escolar com todas as dificuldades e necessidades inerentes a esta atuação, não teve na sua formação conhecimentos básicos necessários para atuar em academias, clubes de treinamento, como personal trainer, etc. (lembrando que nem os bacharéis, no meu ponto de vista, têm) e ainda se acha “agredido” pelo sistema? Será que ele esta somente pensando em “mais um bico” para fazer ou um “cabide de emprego” ou está pensando na qualidade do serviço que ele poderá fornecer ao cliente final?

O mesmo penso para o Bacharel atuando no âmbito escolar. Na minha humilde, opinião ele não teve formação suficiente para fazer um trabalho de intervenção educacional competente em um ambiente tão heterogêneo e carente como o meio escolar.

Bem pessoal e seguidores do TEF esta é minha opinião fundamenta sobre a questão da “divisão” da EF em Bacharelado e Licenciatura. Na verdade não vejo divisão da EF e perda de força, vejo sim que, se agirmos corretamente e unidos, poderemos aumentar nossa competência de atuação e, desta forma, melhorarmos nossa credibilidade perante a sociedade. Para isso, temos que estudar, nos qualificarmos, refletirmos e apresentarmos uma ação prática coerente e eficiente contribuindo, assim, com alunos e clientes.

 Texto produzido por: Prof. Dr. João Moura.