Um sonho de infância: voar sobre rodas

Please log in or register to like posts.

Texto produzido pela Prof. Msc. Claudia Lunardi

      Que tal se retornássemos alguns anos em nossas vidas……

      Qual era e ainda é o sonho de toda criança (se não de todas, da maioria)?

     Dentre os desejos de um ser pequenino há a boneca, o carrinho, a bola, o jogo, a espada, enfim, há um objeto muito desejado. Mas, talvez um consenso entre ambos os sexos seja a bicicleta. A maioria das crianças sonha com uma bicicleta. Sonha brincar, correr, saltar com ela. A satisfação em dar as primeiras pedaladas com ou sem rodinhas laterais são indescritíveis e emocionantes para os pais. Brincar na vizinhança ou ir à escola com bicicleta, não importa: andar de bicicleta é uma sensação única e imensamente prazerosa.

       Mas e se a criança ou adolescente não consegue se deslocar sobre duas rodas?

     Seja por limitações motoras, visuais ou cognitivas. Há crianças que nunca tiveram a oportunidade de sentir o vento no rosto ao “voar” com a bicicleta. Crianças e jovens que apresentam déficit de equilíbrio, perda parcial ou total da visão, presença de movimentos involuntários, dificuldade na execução de movimentos voluntários, orientação em relação ao espaço e tempo, coordenar uma ação a partir da percepção visual, comunicação verbal, cognição entre outras particularidades, muitas vezes, não conseguem utilizar a bicicleta.

Uma brilhante ideia: Bicicleta com três rodas

     Felizmente, em 1680, um alemão paraplégico chamado Stephan Farffler construiu a primeira bicicleta com três rodas. Stephan era relojoeiro e criou um triciclo com engrenagens e manivelas de mão. Ao decorrer dos séculos, estes implementos foram aperfeiçoados e utilizados para recreação ou como meio de transporte. No Brasil, os triciclos geralmente são utilizados por crianças com idade inferior a dois anos (em média). A partir dessa idade, espera-se que a criança aprenda a utilizar bicicletas com duas rodas auxiliares laterais para posterior aprendizado com apenas duas rodas. Alguns pais de crianças com dificuldade motora mantém o uso de bicicletas convencionais e adaptam rodinhas laterais em bicicletas maiores, para melhor equilíbrio e deslocamento de seus filhos. No entanto, essas rodinhas laterais não suportam o peso da criança oferecendo grande risco de queda para a mesma. Assim, há o desestímulo do uso por parte tanto da criança quanto dos familiares. Neste momento, o sonho de andar sobre duas rodas fadasse ao insucesso, decepção e tristeza.

     Porque gerar insatisfação e tristeza em uma criança se ela é capaz de brincar com um triciclo resistente e adaptado? Atualmente há no mercado triciclos com propulsão nos pés (verticais e praianos) e nas mãos (handbike). Além da possibilidade de outras adaptações como pedaleiras (para melhor posicionamento dos pés), guidão especial (para pessoas com comprometimento motor em um ou dois membros superiores), suporte para quadril (auxilia quem apresenta déficit de equilíbrio e grande insegurança), marchas, carona (com dois bancos, muito utilizado por deficientes visuais) e varão rebaixado (para facilitar entrada e saída no triciclo).

     A satisfação em ver o filho andar em um triciclo (dos familiares de uma criança que apresenta dificuldade/comprometimento) é a mesma, ou imensamente superior, àquela vivenciada pelos pais de uma criança que consegue se deslocar em uma bicicleta.  O andar sobre rodas para uma pessoa com dificuldades motoras e/ou cognitivas torna-se um sonho familiar, não somente infantil, mas de todos os entes queridos da criança.

     É simplesmente indescritível vivenciar o primeiro pedalar desta menina ou menino em um triciclo. O sorriso nos lábios da criança em saber que poderá brincar com seus primos e vizinhos além das lágrimas no rosto dos pais, são cenas e sentimentos inesquecíveis.

Triciclo e Paralisia Cerebral: será que é possível?

            A paralisia cerebral é definida como qualquer desordem caracterizada por alteração do movimento secundária a uma lesão não progressiva do cérebro em desenvolvimento. Crianças e adolescentes com este diagnóstico geralmente apresentam uma rotina pouco ativa, devido à dificuldade de inserção social em uma pratica esportiva. Desta forma,o triciclo torna-se, muitas vezes, uma ótima possibilidade de prática esportiva para essa população. O que para muitos é um simples ir para escola com a bicicleta, para uma criança com paralisia cerebral do tipo diplegia1 espástica (por exemplo), é um esforço físico de grande demanda energética. A dificuldade de seletividade dos movimentos torna o simples pedalar em um exercício físico de alta intensidade devido à complexidade dos estímulos nervosos para recrutar os músculos necessários para pedalar. Desta forma, o triciclo gera benefícios sequenciais (em cascata) para os usuários regulares: auxilia no combate a obesidade e comorbidades, melhora a autoestima, condicionamento físico geral, força e resistência de membros inferiores. Enfim, o uso regular do triciclo proporciona satisfação e qualidade de vida para os praticantes e familiares.

            Embora o triciclo contemple uma grande parte dos indivíduos com sequelas decorrentes de lesão cerebral, há ainda uma parcela que não se beneficia do uso do mesmo, geralmente por apresentar maiores limitações motoras, como na triplegia2, ataxia3 ou coreatetose4 (não ha coordenação motora suficiente para realizar a tração com pedais). Em função disto, Mansoor Siddiqi, um ex-competidor para provas com cadeirantes, criou em 1989 um triciclo sem pedais, a Petra. Este implemento possui um suporte para o peito que garante a segurança e o equilíbrio do usuário, mi­­nimizando suas limitações. Difunde-se assim, mais uma possibilidade de prática de atividade física regular para pessoas com maiores comprometimentos motores.

O desafio esta lançado

      O triciclo pode ser utilizado por qualquer pessoa, independente de apresentar comprometimentos ou não. A felicidade em andar com um triciclo é visível no rosto de Rafael. Esse rapaz esta com 20 anos e tem síndrome de Down (foto). Há 5 anos utiliza seu triciclo de forma recreacional na vizinhança: passeia com o cachorro, vai ao mercado, loca filme, desloca-se para escola e, o que ele mais gosta, é de dar carona para a sobrinha (3 anos) na sua garupa (lembrando que sempre há um responsável próximo).

     Andar de triciclo, pelo menos para mim, é tão ou mais prazeroso do que andar em uma bicicleta. Se você tiver a oportunidade, por favor, experimente e divulgue esta ideia. Muitas crianças estão sendo privadas deste prazer por desconhecimentos de quem os cerca.

1 dificuldade motora em membros inferiores

2 dificuldade motora em membros inferiores e um membro superior

3 marcha cambaleante decorrente do déficit de equilíbrio, e apresentam, ainda, incoordenação dos movimentos com incapacidade para realizar movimentos alternados rápidos e dificuldade para atingir um alvo.

4 associação de movimentos involuntários contínuos

 

Referências:

 

http://by-conniehansen.com/

http://www.retropedalcars.com/tricycle_history1.htm

http://www.gazetadopovo.com.br/esportes/conteudo.phtml?id=1065278

 

Carlon SL, Taylor NF, Dodd KJ, Shields N (2012) Differences in habitual physical activity levels of young people with cerebral palsy and their typically developing peers: a systematic review. Disability and Rehabilitation (00):1-9.

 

Rogozinski BM, Davids JR, Davis RB, et al. Prevalence of obesity in ambulatory children with cerebral palsy. J Bone Joint Surg Am. 2007;89(11):2421-6.

 

Peterson M, Gordon P, Hurvitz E (2012) Chronic disease risk among adults with cerebral palsy: the role of premature sarcopoenia, obesity and sedentary behaviour. Obesity Reviews

3 comments on “Um sonho de infância: voar sobre rodas

  1. Muito bacana (sensacional) o texto produzido pela professora Claudia Lunardi, seria interessante esse assunto ter uma divulgação mais ampla. Maravilhoso tudo que ela escreveu. Parabéns Professora Claudia Lunardi.

    • Olá Alcides,

      Realmente o texto da professora Claudia Lunardi foi ótimo ela foi muito feliz ao escrever o texto. Estamos divulgando o máximo possível o texto, conto com sua colaboração para nos ajudar a divulgá-lo.

      Obrigado por interagir, grande abraço.

    • Obrigada Alcides!
      Este assunto é de conhecimento de poucos. Felizmente estou tendo a oportunidade de difundir meu entendimento/conhecimento e vivencia/experiencia em um site de otima qualidade!
      Até o próximo texto!
      Abraço, Claudia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *