A valorização da forma e do peso do corpo tem levado pessoas a verdadeiros sacrifícios, incluindo dentre esses a prática de exercício físico, comprometendo a saúde.

     Com base nesta afirmativa, o presente texto discuti um tema pouco abordado pelos profissionais de educação física que trabalham em academias, a presença de alunos que apresentam transtornos alimentares no ambiente de prática de exercício físico.

     Com certeza você leitor já deve ter ouvido falar de transtornos alimentares, mas o que é essa psicopatologia e quais são as suas categorias?  Os transtornos alimentares são definidos como graves perturbações no comportamento alimentar de um indivíduo (APA, 1994) e caracterizam-se desde a total abdicação de comer à extrema compulsão alimentar (OMS, 1993).

     Há três categorias: anorexia, bulimia e transtornos alimentares sem outras especificações, onde neste último se encontram os quadros parciais de anorexia e bulimia, e o Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP). A síndrome do comer noturno, embora não citada nas classificações do DSM-IV e CID10, tem sido fonte de recentes investigações.

     Estes transtornos acometem principalmente adolescentes e mulheres jovens em idade reprodutiva, mas, em proporções menores (representando apenas 10% dos casos) também são identificadas em homens (MAGALHÃES; MENDONÇA, 2008). Têm origem multifatorial, podendo ser desencadeadas por fatores biológicos, genéticos, psicológicos, socioculturais e familiares (MAGALHÃES; MENDONÇA, 2008, BORGES; SICCHIERI et. al, 2006 ).

     Deteremos a nossa atenção na Bulimia, que caracteriza-se por uma ingestão compulsiva, de uma quantidade de alimentos definitivamente maior do que a maioria das pessoas consumiriam em um mesmo período de tempo, seguida por uma imensa culpa e sensação de impotência sobre o que e a quantidade de comida ingerida, para aliviar esse sentimento é utilizado um comportamento compensatório visando eliminar o que foi ingerido, com o objetivo de não aumentar o seu peso corporal, através de: vômitos autoinduzidos, abuso de diuréticos e laxantes e prática excessiva de exercícios físicos.

     Mas o que esse assunto tem haver com você educador físico que encontra-se na academia prescrevendo sessões de treinamento?

     O exercício físico tem se constituído como uma ferramenta comumente utilizada para perda e manutenção de peso pelo indivíduo com bulimia, pois estes são mais suscetíveis a iniciarem a prática de exercício físico motivados pelo efeito compensatório que esse pode exercer sobre o seu organismo (STRIGEL-MOORE; ROSSELI et al., 2009). Pessoas com bulimia realizam sessões de treinamento que se estendem por horas e que são executadas de forma exacerbada e, por consequência, o exercício passa a ser uma arma contra o seu próprio corpo, acarretando em problemas de ordem física e social.

     Weis et al. (2012), analisando uma amostra de 197 mulheres  praticantes de musculação e ginástica encontrou 22 sujeitos com traços de bulimia e destas 13 utilizavam o exercício físico como método compensatório após episódios de alimentação exageradas.

     Assim é importante que o educador físico esteja atendo e reconheça os sintomas da bulimia para realizar um pré diagnóstico e posteriormente encaminhar o indivíduo a um profissional especializado para tratamento.  É papel do educador físico educar seu aluno/cliente para os benefícios do exercícios físico e também orientá-lo para os riscos físicos e psicológicos de uma prática inadequada.

DICASPARAOEDUCADORFÍSICO

            Fique atendo às atitudes do seu aluno e perceba se ele está usando o exercício físico como procedimento compensatório quando:

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Checagem excessiva no espelho;

Usa técnicas perigosas para perder peso (jejum ou dietas) antes e após o exercício;

Insistentemente apalpa regiões do corpo após o exercício medindo reduções;

Desobedece a orientação do treinamento acreditando ser insuficiente para perder peso;

Apresentam súbitas e acentuadas flutuações de peso;

Deixa de lado estudos e diversões, exagerando na prática de exercícios físicos;

Omite-se de lesões em favor da prática de exercício físico;

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ReferenciasBibliográficas

American Psychiatric Association (APA). Diagnosticandstatisticalmanualofmentaldisorders(4th ed., rev.). Washington, DC: Author, 1994.

Borges, N. J. B. G.; Sicchieri, J. M. F.; Ribeiro, R. P. P.; Marchini, J. S.; Santos, J. E. Transtornos alimentares – quadro clínico. Medicina, Ribeirão Preto, v. 39, p. 340-348, 2006.

Magalhães, V. C.; Mendonça, G. A. S. Transtornos alimentares em universitárias: estudo de confiabilidade da versão brasileira de questionários autopreenchíveis. RevistaBrasileiradeEpidemiologia, São Paulo, v. 8, p. 236-245, 2008.

Striegel-Moore, R. H.; Rosseli, F.; Perrin, N.; DeBar, L.; Wilson, G. T.; May, A.; Kraemer, H. C. Gender difference in the prevalence of eating disorder symptoms. InternationalJournalEatingDisorder, Los Angeles, v. 42, p. 471-474, 2009.

Weis, A; Fonseca, P.H.S;  Villas Bôas, M.S; Stefanello, J. M; Coelho, R.W. Bulímicas: elas vão a academia de ginástica?RevistaBrasileiradeCiênciasdoEsporte, 2012.