Introdução

     Já há algum tempo que o termo musculação não é usado em publicações científicas tanto nacionais quanto internacionais. Isto se deve ao fato de que o termo musculação traz consigo a idéia de muscular e ao analisarmos o que seria “muscular” interpretamos várias possibilidades.

      De acordo com Moura e Hopf (2002), muscular poderia ser entendido como a hipertrofia muscular, porém os mesmos autores demonstram que outras formas que não a musculação hipertrofiam, basta verificar a diferença no desenvolvimento muscular do antebraço do lado dominante de um tenista, este é sempre maior em volume muscular que o contralateral, ou seja, apresentando hipertrofia.

     Se muscular for interpretado como desenvolver a resistência do músculo,mais uma vez, outras formas de exercitação podem fazer o mesmo sem ser musculação. Isto é comprovado ao vermos a enorme resistência muscular de membros inferiores de um jogador de futebol de areia ou de um ciclista.

     Assim, fica demonstrado que “muscular-se” gera várias interpretações e diferentes metodologias de trabalho físico, que não a musculação, podem produzir resultados eficientes. Em função disto no meio científico não se usa o termo musculação. Atualmente os termos exercícios resistidos ou treinamento resistido são os mais usuais para definir a modalidade de musculação.

Todavia, questiono esta definição e acredito que precisamos complementá-la para tornar-se mais precisa. Na seqüência do presente texto procurarei defender minha linha de raciocínio neste sentido.

Treinamento Resistido

     A base conceitual, fisiológica e biomecânica do treinamento resistido é de que a partir de uma contração muscular haverá um encurtamento da fibra muscular e de todos as suas estruturas contráteis como miofibrila e sarcômero. Ao realizar-se fisiologicamente essa contração muscular é ofertado uma resistência externa ao encurtamento muscular, surgi assim o termo TREINAMENTO RESISTIDO pois deve haver sempre uma resistência ao movimento (encurtamento muscular). Esta resistência é o estímulo de treino.

     Segundo Teixeira (2001, p.8) “entende-se por treinamento resistido qualquer metodologia de treinamento que utilize como princípio básico a utilização de uma resistência que se oponha a tensão gerada pela contração da musculatura esquelética”.

     Frente as colocações anteriores torna-se claro que musculação é uma forma de treinamento resistido pois a base de treino é gerar resistência através de pesos contra os movimentos realizados. Porém, de acordo com Bryant (1990), o tecido muscular ao se contrair e gerar tensão, não consegue identificar o tipo de resistência ofertada a ele somente a intensidade desta. Ao aumentarmos uma resistência ao movimento, como por exemplo, colocar mais peso no exercício de supino livre, os músculos cinesiologicamente envolvidos aumentarão sua tensão para superar a resistência dos pesos (barra e anilhas) mas estes músculos não têm condições de identificar se foi o peso das anilhas que aumentou, ou o peso da barra que foi colocado maior, ou ainda, se um auxiliar forçou a barra para baixo.

Formas de gerar resistência a contração muscular

     Podemos fazer um exercício intelectual para analisarmos formas de gerarmos resistências ao trabalho de tensão de encurtamento muscular. Aborrage (2008), escreveu uma obra na qual apresentou uma metodologia de treinamento de força executado na água onde a base biomecânica e fisiológica do trabalho era a resistência da própria água. Se analisarmos com cuidado a própria metodologia de trabalho da hidroginástica podemos verificar que a base de treinamento desta é a resistência da água, como é contundentemente colocado por Simões (2007). Cruz e Martins (2007), apresentaram treinamento de força com bola. Este treinamento é baseado na resistência ao treinamento ofertada pelo próprio corpo. O próprio treinamento funcional com bola (Verderi, 2008) é baseado na resistência à tensão muscular gerada pelo peso do corpo. Hopf e Moura (2011) apresentam diferentes variáveis que modulam a resistência do esforço físico na hidroginástica e na ginástica de step sendo utilizada diferentes estratégias que não pesos.

     Teixeira, em obra recente (Teixeira, 2011) apresenta uma concepção de “musculação sem equipamentos” onde o autor apresenta o treinamento resistido manual e que segundo o próprio autor:

“o treinamento resistido manual (do inglês Manual Resistance Training) utiliza a resistência imposta por um parceiro de treino para a execução dos exercícios resistidos, ou seja, utiliza resistência manual. Em uma abordagem mais popular, é a musculação sem utilização de equipamentos” (IPE, 2011, p.8).

     Treinamento utilizando extensores (cordas elásticas, borrachas, etc.) também caracterizam-se como treinamentos resistidos, uma vez que quanto mais amplo o movimento é executado em um determinado exercício, maior o estiramento do extensor e maior a resistência contra este movimento. Treinamentos de corridas utilizando-se a tração de miniparaquedas (muito comum em treinos do futebol e atletismo) também geram resistência ao movimento sendo esta ofertada pelo ar.

     Nos dois últimos parágrafos identifiquei uma série de treinamentos que se utilizam de diferentes formas de gerar resistência ao movimento. Então podemos verificar que o treinamento resistido existe de diversas formas de aplicação:

  • Treinamento Resistido com peso do próprio corpo;
  • Treinamento Resistido pela água;
  • Treinamento Resistido manual;
  • Treinamento Resistido por tensores;
  • Treinamento Resistido pelo deslocamento do ar.

     Todos os treinamentos citados acima podem estimular o desenvolvimento de força e resistência muscular como o que ocorre na musculação. No entanto, devemos verificar que a “musculação” a base de resistir ao movimento é, via de regra, pesos que exploram a ação gravitacional para gerar a resistência ao encurtamento muscular de fibras, miofibrilas e, em última análise, sarcômeros.

     Entendo desta forma, que caracterizar “musculação” como somente TREINAMENTO RESISTIDO, não caracteriza totalmente a modalidade, além de gerar várias possibilidades de interpretação quanto à resistência utilizada.

     Minha sugestão para o ajuste destas questões é de que “musculação” seja denominada cientificamente como um TREINAMENTO RESISTIDO COM PESOS já que, invariavelmente, a resistência produzida na “musculação” advém de pesos projetados biomecanicamente em máquinas, pesos livres ou peso do próprio corpo.

     Neste sentido venho publicando alguns trabalhos onde tenho utilizado TRP para denominar “TREINAMENTO RESISTIDO COM PESOS” (Moura, Peripolli e Zinn, 2002), ou ERP para designar “EXERCÍCIOS RESISTIDOS COM PESOS (Moura, Lunardi e Zinn, 2004) sempre me referindo ao método de treinamento de denominação popularMUSCULAÇÃO”.

Considerações finais

     Busquei neste texto explanar a necessidade de, em documentações científicas, não mais utilizarmos do termo musculação com já vem sendo feito por alguns autores. Mas também, expus meus argumentos no sentido de que o termo treinamento resistido, embora apresente um grande avanço conceitual da terminologia, não a completa. Apresento o termo treinamento resistido com pesos como uma terminologia mais completa e que caracteriza de forma cabal as características do treinamento mais popularizado atualmente no Brasil… a musculação.

 

Referências Bibliográficas:

Moura, João Augusto Reis de e Hopf, Ana Claudia Oliveira. Terminologia na musculação. Revista Dynamis, vol. 10, n. 38, p.18-23, 2002.

Hopf, Ana Claudia Oliveira e Moura, João Augusto Reis de. Abordagem metodológica da ginástica de academia. Blumenau: Nova Letra, 2011.

Verderi, Erica. Treinamento funcional com bola. São Paulo: Phorte Editora, 2008.

Cruz, Taciana Marcondes Fonseca e Martins, Daniela Silva. Exercícios com bola. São Paulo: Phorte Editora, 2007.

Simões, Regina Maria Rovigati. Hidroginástica. São Paulo: Phorte Editora, 2007.

Aborrage, Nino. Treinamento de força na água. Phorte Editora, 2008.

Teixeira, Cauê Vasquez La Scala. Treinamento resistido manual: a musculação sem equipamentos. Phorte Editora, 2011.

Informa Phorte Editora (IPE). Exercício, emagrecimento e intensidade do treinamento: aspectos fisiológicos e metodológicos. 2011.

Moura, João Augusto Reis de Moura; Peripolli, Jeovani; Zinn, João Luiz. Comportamento da percepção subjetiva de esforço em função da força dinâmica máxima em exercícios resistidos com pesos. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício. Vol. 2, n.2, p.110-122, 2002.

Moura, João Augusto Reis de; Lunardi, Claudia Cruz; Zinn, João Luiz. Efeito agudo do treinamento resistido com pesos sobre o peso hidrostático, densidade corporal e percentual de gordura. Revista Brasileira de Cineantropometria e Desempenho Humano. Vol. 6; n.2; p. 45-52, 2004.

Bryant, C. Manual resistance exercise: strength training without equipment. Journal Ariz Assoc. Physical end Recreation Dance. Vol.28, n.5, p.21-24, 1990.