Enfim independência: Nadar!!! (Continuação)

            Dando continuidade ao texto publicado no site Treino em Foco (https://www.treinoemfoco.com.br/opiniao-qualificada/enfim-independencia-nadar/) serão apresentadas sugestões de adaptações utilizadas com pessoas com dificuldade motora na piscina. Em seguida, farei alguns esclarecimentos em relação ao nível de independência e formas de deslocamentos para crianças, jovens e adultos com comprometimento motor.

Adaptações

– Boias de braço: auxiliam no equilíbrio lateral de crianças e adolescentes com dificuldade para tal;

– Espaguete ou macarrão: auxiliam no equilíbrio frontal. Dependendo da massa corporal do adolescente ou adulto, há necessidade da utilização de dois flutuadores;

– Pesos na cintura: há pessoas que não possuem equilíbrio de tronco e quando imersas na piscina, tendem a permanecer com o rosto dentro da água (decúbito ventral) ou olhando para cima (decúbito dorsal), apresentando dificuldade de exploração do ambiente e riscos de engasgos. Os pesos na cintura1 facilitam a permanência na posição em pé (na vertical), trocas de decúbitos e diminuem os riscos de submersão involuntária das vias aéreas;

– Nadadeiras (pés de pato): são essenciais para um deslocamento efetivo. Na tentativa de gerar propulsão, as crianças e adolescentes realizam a flexoextensão de joelhos e quadris em grande amplitude, dificultando o deslocamento. As nadadeiras tornam a potencia de extensão dos joelhos e quadris superior a flexão dos mesmos, gerando o deslocamento efetivo.

            O tipo e quantidade de adaptações dependem do quadro clinico de cada pessoa. Não há uma receita de bolo uma vez que os comprometimentos motores e cognitivos diferem entre os “nadadores”. Muitas vezes, é necessário inventar novas adaptações, como por exemplo, dar um nó com o espaguete para auxiliar no equilíbrio da criança, ou utilizar apenas uma boia de braço (quando há dificuldade maior em um dos lados do corpo).

            As aulas de natação para pessoas com dificuldade motora são diferentes a cada dia, é possível aprender diariamente, exigindo atenção e flexibilidade de raciocínio para encontrar e entender os mecanismos de propulsão e interesse de cada um. A utilização dos pesos na cintura é um ótimo exemplo do aprendizado que tive com uma aluna: Isabela comentou comigo que um professor estava utilizando pesos em seus tornozelos para mantê-la em pé na piscina. “Como eu nunca havia pensado nisso?”. Desde então, tenho utilizado os pesos na cintura (nos pés há uma maior sobrecarga nos membros inferiores, dificultando ainda mais a movimentação dos mesmos). Desta forma sugiro sempre: ouça o que o aluno está dizendo. Muitas vezes, a comunicação pode ser dificultada devido à disartria2 ou afasia3, mas é necessário estar atento ao aluno, pois é ele quem pode nos oferecer o melhor retorno do que esta acontecendo.

Nível de independência e formas de deslocamentos

            É importante esclarecer que o nível de comprometimento motor pode nos oferecer uma pequena ideia de quais adaptações serão necessárias, no entanto, não devemos concluir nada sem antes observar a pessoa dentro da água. Por exemplo, ao vermos uma criança com dificuldade apenas em um lado do corpo (hemiplegia) e outra com dificuldade nos quatro membros (tetraplegia): nossa primeira impressão é de que a criança com hemiplegia não necessite de nenhuma adaptação e que a criança com tetraplegia necessitará de varias adaptações.

            Eis o grande “X” da questão: o ser humano é uma caixinha de surpresa e apresenta qualidades muitas vezes invisíveis aos nossos olhos. Tenho alguns alunos que apresentam dificuldade motora em três membros ou outros que apresentam amputação dos quatro membros, mas são totalmente independentes na piscina. Jovens que não apresentam nenhum receio de estar submersos e conseguiram encontrar uma forma de se movimentar e gerar deslocamento efetivo. Em contrapartida, há crianças e adolescentes com hemiplegia que não conseguem aprender a nadar, pois tem muito medo da água. Sempre esclareço aos pais e colegas de trabalho que o nível de independência depende muito mais do cognitivo e experiência previa em ambiente aquático do que do comprometimento motor. Então, não podemos decidir as adaptações necessárias para uma pessoa, sem antes possibilitar a vivência dentro da água.

            Em relação às formas/posicionamento de deslocamento, é necessário, novamente, ouvir o “nadador” e oferecer possibilidades para ele vivenciar. O deslocamento pode ser realizado apenas de barriga para baixo (decúbito ventral), com a barriga para cima (decúbito dorsal), intercalando ambos, sobre um braço, ondulando, movimentando apenas um pé, uma mão, enfim, como sempre: não há uma regra, é necessário oportunizar a pratica para melhor avaliação.

Obs.: uma postura geralmente adotada pelas crianças com quadro motor mais grave é a extensão cervical. Nesses casos, deve-se haver atenção para a imersão das vias áreas quando em decúbito dorsal (posição, geralmente, preferida e que oferece maior segurança à criança com maior comprometimento motor). Geralmente, há necessidade da utilização de um flutuador na região cervical.

Possibilitar

            A palavra da vez é Possibilitar. Possibilitar a vivencia da natação para uma pessoa com dificuldade motora pode mudar sua vida (mudar a vida do professor e da pessoa com dificuldade motora). Pode ser a única opção de prática esportiva para essa pessoa. Não prive uma criança do ambiente aquático. Não deixe a sua insegurança ou medo (da criança, do professor e dos pais) limitarem um ser humano do prazer que é nadar!

1  Pesos na cintura: esses pesos possuem uma massa em torno de 100 gramas a 800 gramas. Varia conforme massa corporal e dificuldade da pessoa para permanecer na posição vertical.

2 Disartria: distúrbio neurológico caracterizado pela incapacidade de articular as palavras de maneira correta

Afasia: distúrbio neurológico que acarreta dificuldade para formulação e compreensão da linguagem.