A IMPORTÂNCIA DA AVALIAÇÃO FÍSICA PRÉ-PROGRAMA DE EXERCÍCIOS FÍSICOS

INTRODUÇÃO

         Muito se fala, mas pouco se cumpre sobre a avaliação pré-programas de exercícios físicos. É inegável a importância de se realizar avaliações de diferentes parâmetros físicos e fisiológicos antes de iniciar a prática de exercícios principalmente, e particularmente, quando se trata de um indivíduo sedentário.

        A exigência legal é com relação a uma avaliação, de cunho geral, com profissional médico o qual habilitará ou não o indivíduo à prática do exercício físico. Esta exigência legal, por muitas vezes, é transferida para um termo no qual o futuro praticante assina assumindo toda e qualquer responsabilidade sobre sua saúde inicial referente à prática dos exercícios, já que este não irá fazer a consulta médica pré-programa. Esta é uma posição, no meu entendimento, descabida e equivocada das academias de ginástica e de personal trainers, pois vejamos:

         A avaliação médica pré-programa de exercícios é uma forma de assegurar, até determinada medida, de que o futuro praticante de exercício apresenta boas condições de iniciar o programa onde serão exigidos diferentes tipos de esforços físicos acima da homeostasia do mesmo (Moura, 2011a). Entende-se que o profissional médico é a figura com conhecimento capaz de atestar tal condição de saúde física. Ao propor-se a assinatura de um termo que extingue esta avaliação médica e propor que o próprio futuro praticante se responsabilize por sua saúde é, no mínimo, descredenciar completamente o conhecimento do profissional médico.

         Outro ponto em relação a tais episódios diz respeito às interpretações éticas. Para analisar esta questão pode-se produzir uma analogia através de uma história sucinta.

         você sente uma dor no peito ao realizar pequenos esforços físicos como caminhar ou subir escadas, esta dor é leve e não o incomoda funcionalmente, porém você fica preocupado e vai consultar um cardiologista. No consultório responde as perguntas de anamnese do profissional e este, para um diagnóstico final, necessita de alguns exames adicionais, porém já possui alguns indicadores do que venha a ser o seu problema. Imagine que neste momento você recebesse a seguinte proposta do médico: “se você quiser poupar tempo e dinheiro poderia assinar esse termo, e ao fazê-lo, não necessitará mais de exames complementares e eu farei agora, neste momento, a sua prescrição de medicamentos sem a necessidade destes exames”. Como você se sentiria ao receber esta “proposta”?

        Entendo que ao propor-se um termo que “isenta” a necessidade de exame médico prévio à participação em programas de exercícios, se está produzindo uma situação semelhante à apontada anteriormente neste texto.

AVALIAÇÕES PRÉ-PROGRAMA DE EXERCÍCIOS FÍSICOS

         Uma avaliação pré-programa de exercícios não se encerra na avaliação médica. Para uma adequada programação de exercícios físicos é necessário conhecimento de alguns aspectos do futuro praticante. Na sequência, abordarei ponto a ponto e explicarei cada item.

         Uma avaliação postural pré-programa de exercícios é fundamental (Moura e Silva, 2012). Se o indivíduo apresentar desvios posturais na coluna vertebral como hipercifose e hiperlordose, determinados exercícios deverão ser prescritos na busca de correção dos desvios. Por outro lado, uma escoliose identificada é um fator de referência para que determinados exercícios sejam evitados no sentido de que não venha a prejudicar ainda mais este desvio postural (Moura e Silva, 2012). Também, ao detectar-se problemas posturais referente à coluna vertebral, deve-se sempre analisar se os discos intervertebrais não foram “afetados” por tais desvios. Assim, preocupações quanto à observação de possíveis hérnias de disco devem estar em pauta e um extremo cuidado deve ser dado à seleção de exercícios que comporão o programa.

        Identificar o percentual de gordura (%G) e da massa muscular (%MM) são parâmetros morfológicos fundamentais a serem avaliados. Por vezes, indivíduos aparentemente sem gordura corporal excessiva, ao serem avaliados por técnicas da composição corporal, apresentam %G caracterizados como sobrepeso ou obesidade grau 1 (Moura, 2011b; Petroski, 2011), esses indivíduos são os denominados de “falsos magros”. Frente a tais avaliações surge a necessidade de rever objetivos do programa de treinamento e avaliar a necessidade de introduzir treinamentos voltados ao emagrecimento e também ao aumento do volume muscular caso seja detectado um baixo %MM.

         Medidas antropométricas também permitem avaliar riscos para a saúde através de dados simples como IMC (índice de massa corporal) e/ou RC/Q (Relação Cintura/Quadril). De posse de tais dados é possível identificar potenciais riscos a saúde do praticante e, assim, rever procedimentos de treinamento.

        Medidas fisiológicas de repouso de FC (Frequência Cardíaca), PA (Pressão Arterial) e glicose, permitem a escrutínio do praticante em hipertenso/hipotenso, hiperglicêmico/hipoglicêmico, condições fisiológicas estas que influenciam fortemente na programação do treinamento desde a seleção de exercícios até as metodologias de treinamento aplicadas. Cuidados especiais devem ser conduzidos nos treinamentos executados a populações hiper/hipotensas e/ou hiper/hipoglicêmicas. Valores de FC de repouso muito elevadas (acima de 100bpm) sem nenhuma causa psicológica aparente podem ser reveladoras de problemas ou patologias cardiovasculares que merecem investigação médica mais aprimorada (Maud e Foster, 2009).

         Diante destas condições, se medidas avaliativas de parâmetros fisiológicos de repouso não forem realizadas, o Educador Físico não terá condições de estabelecer critérios de treinamento adequados ao futuro praticante, ou seja, não terá como individualizar o treinamento… prescreverá às cegas!

         Testes físicos de flexibilidade podem ser extremamente ilustrativos no diagnóstico de algias, particularmente as cervicalgias, lombalgias e ciatalgias. Encurtamentos musculares pronunciados e por longa data, podem desenvolver processos dolorosos locais e, em alguns casos, projetar tensões elevadas sobre o nervo ciático. Testes, relativamente simples, de flexibilidade são capazes de demonstrar pontos corporais de encurtamentos que devem ser tratados com exercícios de alongamentos/flexionamentos adequados (Moura, 2011a).

        Mensurar a resistência muscular dos grupos reto abdominal, transverso do abdome e oblíquos é importante do ponto de vista estético já que os mesmos são sustentadores viscerais e impedem, até certo grau, a protusão abdominal (Maud e Foster, 2009). O músculo reto abdominal é um dos principais músculos para manter a pelve em equilibro e uma adequada resistência deste grupo muscular é importante para impedir anteversão pélvica e, consequentemente, hiperlordose lombar (Moura, 2012). Portanto, medir a resistência muscular Localizada (RML) é um dos importantes itens avaliativos pré-programa de exercícios físicos.

        Se tais avaliações não forem adicionalmente realizadas ao exame médico, o profissional estará prescrevendo exercícios ÀS CEGAS! Isto é, sem dados avaliativos prévios que permitam ao profissional de Educação Física conhecer de forma mais íntima mecânica, estrutural e morfofisiologicamente seu cliente. Desta forma, a prescrição ocorrerá sem base alguma para individualizar os treinamentos e torná-los mais específicos, seguros e eficientes aos praticantes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

        Exercícios físicos não podem ser prescritos às cegas! Deve-se possuir dados que permitam melhor interpretar as condições do futuro praticante e até mesmo orientar, ou reorientar, os objetivos de treinamento do mesmo.
Como um médico precisa de exames clínicos e laboratoriais para “fechar” um diagnóstico e a partir do mesmo iniciar de uma prescrição de medicamentos, o Educador Físico necessita de avaliações posturais, físicas, morfológicas, fisiológicas, entre as mais importantes, para elaborar um programa de exercícios físicos individualizado (personalizado), eficiente e seguro.

        Portanto, não deixe de avaliar o seu cliente, faça sempre as avaliações necessárias para uma adequada prescrição. NÃO PRESCREVA ÀS CEGAS!

REFERÊNCIAS

Moura JAR. Saúde em ação. Blumenau: Nova Letra, 2011a.
Moura JAR. Protocolos antropométricos e equações preditivas da composição corporal. Blumenau: Nova Letra, 2011b.
Moura JAR, Silva A. Postura corporal humana: avaliação qualitativa visual por simetrografia e a prescrição de exercícios. Várzea Paulista – SP: Fontoura, 2012.
Petroski EL. Antropometria: técnicas e padronizações. Várzea Paulista – SP: Fontoura, 2011.
Peter JM, Foster C. Avaliação fisiológica do condicionamento físico humano. 2ª ed. São Paulo: Phorte, 2009.