INTRODUÇÃO

                O esporte de corrida de rua embora seja um dos mais democráticos exige alguns cuidados na sua prática. Como o ato motor de execução do exercício é realizado através de corrida, gera impacto as articulações de carga (tornozelo, joelho e quadril) podendo repercutir também sobre coluna vertebral. A corrida é processada como se fossem pequenos saltos nos quais em dados momentos nenhum dos dois pés esta em contato com o solo. Isto caracteriza o que chamamos de fase de vôo.

                A retomada ao solo através do retropé em sua face lateral produz uma carga de impacto em torno de quatro vezes o peso corporal, tal valor poderá ser maior ou menor em função da técnica de corrida adotada e da intensidade desta. Também devemos estar atento que em uma maratona, por exemplo, são realizados em torno de 30.000 passos. Isto gera uma exposição do aparelho locomotor ao esforço repetitivo.

                Sob tais condições, a corrida de rua apresenta alguns aspectos preventivos que devem ser observado no intuito de evitar fadigas ou lesões no aparelho locomotor. O texto que apresento a seguir analisa algumas situações de perigo e explicas cuidados que devem ser observados e tratados como fatores preventivos.

DESENVOLVIMENTO

                Muitos corredores de rua sofrem de Estresse Tibial Media – ETM – (Periostite, ou popularmente “canelite”). O Estresse Medial Tibial caracteriza-se por dor de leve a intensa na face anterior da perna próximo ao principal osso do segmento, a tíbia, por isso a sugestão de “canelite”. Esta dor é causada por uma inflamação no periósteo da tíbia (membrana que circunda e esta agregada ao osso), tendões ou músculos da perna em sua face anterior (FOTO). O diagnóstico preciso pode ser feito através de Resonância Magnética do segmento perna onde deverá apontar um espessamento do periósteo na região da dor. A densitometria óssea com uma avaliação de médico endocrinologista também é interessante para afastar a possibilidade da dor ocorrer em função de algum distúrbio do metabolismo ósseo.

                O ETM pode surgir em função de vários aspectos:

                – técnica inadequada da corrida;

                – sobrepeso;

                – uso de tênis inadequado para correr em terreno duro;

                – tornozelo hiperpronado ou hipersupinado;

                Uma técnica de corrida incorreta pode gerar maior grau de impacto sobre o as articulações de carga quando em fase de vôo o pé retorna ao solo. O mesmo pode ocorrer se o praticante apresentar sobrepeso ou até mesmo leve obesidade, em tais condições o grau de impacto do retropé com os solo será maior. Associado a estas condições um piso duro e um tênis sem a devida absorção de impacto, maximizam as condições que podem levar a um ETM.

                O tornozelo hiperpronado ou hipersupinado também pode ser parte da causa de ETM. A pisada do ser humano durante a marcha pode ser caracterizada como neutra (o mais adequada), supinada ou pronada. O problema maior reside nas posições excessivamente supinada ou pronada do tornozelo.

                Tornozelo pronado esta associado ao pé plano (FOTO) e nestas condições o maléolo medial se projeta mais internamente que o normal quando do momento logo após o impacto do retropé lateral com o solo. Há uma eversão do tornozelo com rotação externa do tálus e a tíbia rodando internamente. O tornozelo supinado ocorre exatamente o contrário do exposto para o pronado.

                Uma forma de medir o alinhamento do tornozelo é posicionar marcadores no centro da perna, centro do tendão calcâneo na altura dos maléolos e centro do osso calcâneo. Se a linha que une estas estruturas estiver relativamente retilínea o posicionamento será considerado neutro, se a linha formar maior ângulo na fase interna temos tornozelo pronado, se o maior ângulo for formado na fase externa, temos tornozelo supinado, ou pisada pronada e pisada supinada, respectivamente. (FOTO).

                Para compensar este desvio do tornozelo modificações angulares das articulações do joelho e quadril podem ocorrer retirando-os do posicionamento adequado o que acaba por tensionar cartilagens, ligamentos, tendões e músculos adjacentes além do considerado normal podendo evoluir a lesões nestas estruturas. Assim, esporão no calcâneo, dores de joelho, quadril e coluna podem surgir além do ETM.

                O surgimento do ETM de forma intensa devido a pisada pronada ou supinada pode inviabilizar os treinamentos por alguns microciclos repercutindo na queda do VO2 máx. Sugerimos que quando em tratamento e impossibilitados de treinamento de corrida, os praticantes realizem natação, remo ou outra atividade aeróbia para que ocorram mínimas perdas do VO2 máx.

                Se o ETM não for muito intenso o uso de gelo local e antiflamatórios pode ser um tratamento adequado junto com a diminuição da intensidade e volume dos treinos de corrida durante de reabilitação.

                Correção da pisada pronada ou supinada através de palmilhas personalizadas são fundamentais além do uso de um tênis firme no pé e com boa aderência no solado para permitir boa tração no solo.  O tênis deve apresentar boa absorção de impacto tanto no retropé (parte de trás do pé que primeiro toca o solo) e do antepé (parte anterior do pé, última região a ter contato com o solo). Na pisada pronada a região interna do solado do tênis deve ter uma consistência maior que as outras regiões buscando uma “correção” da pisada. E no pisada supinada deve ter maior consistência na parte externa do solado. (foto)

                Treinamento de fortalecimento muscular e flexibilidade dos músculos anteriores, laterais e posteriores do segmento perna tendem a minimizar as dores de ETM. O fortalecimento da musculatura tibial e fibular é particularmente importante no processo preventivo.

CONCLUSÃO

                Vimos que a “canelite” é uma inflamação que pode ser leve e passageira se adequadamente tratada, mas se isso não ocorrer pode evoluir para níveis altos de desconforto e dor o que pode repercutir em incapacidade de treino. Uso de tênis adequado, fortalecimento e alongamentos musculares além do uso de palmilhas corretivas fazem parte do arsenal de possibilidades de tratamento.

                Portanto, além de uma adequada técnica de corrida, busque sempre um tênis adequado e um ideal trabalho de preparação muscular.

Texto produzido por:

Prof. Dr. João Moura

CREF 07870-G\SC