O Treino emFOCO convida você a ler mais um excelente texto da Professora Doutora CLAUDIA LUNARDI onde a mesma descreve seu relato pessoal ao passar férias nos EUA e se deparar com o incrível avanço da obesidade naquele país.

Ótima leitura a todos.

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OBESIDADE: UM CHOQUE CULTURAL

Hoje decidi falar um pouco sobre a obesidade, pois, embora eu já soubesse que a mesma se tornou um problema de saúde publica mundial e uma epidemia1 global, eu nunca havia encarado a realidade de perto. Foi chocante!

                Recentemente, passei as ferias nos Estados Unidos e fiquei impressionada com a quantidade de obesos mórbidos2 que encontrei nos parques do país. Eram muitos! E mais chocante foi descobrir que eu tinha uma imagem minúscula de um obeso mórbido. Vi diversas pessoas que não conseguiam andar mais que alguns metros. Elas necessitavam de cadeiras de rodas para passearem pelos parques. Por quê? Não conversei com nenhum deles, mas acredito que se deva ao descondicionamento físico e dores articulares.

A epidemia da obesidade no Brasil e no mundo

Os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF)3, realizada em 2008-2009 em nosso país, apontou uma prevalência de excesso de peso4 de 50,1% e 48,0 para homens e mulheres, respectivamente. As prevalências de excesso de peso e de obesidade5 aumentaram continuamente ao longo dos anos nos dois sexos. Ao comparar os dados de 1974-1975 e 2008-2009, a prevalência de excesso de peso em adultos aumentou em quase três vezes no sexo masculino (de 18,5% para 50,1%) e em quase duas vezes no sexo feminino (de 28,7% para 48,0%). No mesmo período, a prevalência de obesidade aumentou em mais de quatro vezes para homens (de 2,8% para 12,4%) e em mais de duas vezes para mulheres (de 8,0% para 16,9%).

A Organização Mundial da Saúde6 projetou que em 2005 o mundo teria 1,6 bilhões de pessoas acima de 15 anos de idade com excesso de peso e 400 milhões de obesos. A mais recente publicação da Organização Mundial da Saúde verificou que a prevalência de obesidade na população mundial, acima de 20 anos, no ano de 2008 era de 502 milhões de indivíduos.  A projeção para 2015 é ainda mais pessimista: 2,3 bilhões de pessoas com excesso de peso e 700 milhões de obesos, indicando um aumento de 75% nos casos de obesidade em 10 anos. A Figura 01 possibilita uma melhor visualização da distribuição da prevalência do excesso de peso mundial nos anos de 2002, 2005 e 2010. Observa-se que com o avançar dos anos as cores escuras ganham maior predominância nos mapas, indicando aumento da prevalência da obesidade.

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Figura 01. Prevalência estimada de excesso de peso (IMC ≥ 25km/m2) na população mundial (masculina, idade superior a 15 anos) no ano de 2002, 2005 e 2010. Adaptado de https://apps.who.int/infobase/

Consequências da obesidade

Se questionarmos quem nos cerca, veremos que a maioria tem conhecimento de que o excesso de peso não é bom para saúde. Mas, a verdade é que ninguém entende o porquê desta relação.

                Quando falamos em excesso de peso, sobrepeso ou obesidade, geralmente, visualizamos uma pessoa com tamanho corporal maior. Ninguém visualiza as artérias/veias desta pessoa carregando colesterol ou o coração sobrecarregado por descondicionamento. Eis o grande problema da obesidade: a maioria das pessoas acredita que ela se refere apenas a uma aparência física (ser gordo ou magro?), mas o excesso de peso é um problema muito maior que apenas um tamanho corporal grande.

                O sobrepeso e obesidade são definidos como acúmulo anormal ou excessivo de gordura que pode ser prejudicial à saúde e ocorre quando, a longo prazo, o consumo de energia excede o dispêndio de energia. Associam-se com frequência a dificuldades respiratórias, articulares, problemas dermatológicos, distúrbios do aparelho locomotor, doenças cardiovasculares, dislipidemia, hipertensão arterial, resistência à insulina e diabetes.

                O excesso de peso é um das principais causas de risco para morte no mundo. No mínimo, 2,8 milhões de adultos morrem por ano em consequência desse quadro. Pois bem, a obesidade, decididamente, não é apenas um fato relacionado a ser magro ou gordo.

No exterior

                Ao viajar para os EUA fui orientada em relação ao seguinte: “quem converte, não se diverte” (ou seja, ao ir para os EUA temos que pensar em dólares, e não em reais), mas eu sou mais adepta a: “quem não converte, enlouquece” (pois ao retornar ao Brasil irá se abismar com os reais gastos no exterior). Enfim, eu sempre converti e ao retornar, sabia exatamente quanto tinha gasto!

                Bem, iniciei este capitulo com essas explicações, pois houve nos EUA muitas decepções financeiras gastronômicas. Por exemplo: sempre ouvi dizer que o fast food (comida rápida) era muito mais baratos nos EUA do que no Brasil. Não constatei isso. Choquei ao comprar um hambúrguer, batata frita e refrigerante pelos mesmos 18 reais que pagamos em media no Brasil.

                Outro acontecimento desesperador: para poder comer arroz, feijão e um pedaço de carne em um dos parques americanos tive que pagar 60 reais (por pessoa). Claro que as pessoas sempre irão preferir comer hambúrguer por 18 reais e abrir mão de uma alimentação saudável por 60 reais! E como fica o crescimento da obesidade? Alguns podem pensar: ah, mas isso é porque você comeu nos parques. Tudo bem, só que para comer fora dos parques não é tão fácil assim. Primeiro: geralmente são pratos prontos com comida bem gordurosa. Segundo: tentamos comprar utensílios para cozinharmos no hotel, mas só havia embalagens gigantes. Não encontramos, por exemplo, um pote de margarina de 250 gramas. Só havia de 1 kg. Leite? No mínimo 2 litros. Acredito que isto não seja problema para uma família numerosa, mas e para uma pessoa que vive sozinha? Ou essa comerá muito, ou terá um grande prejuízo.

                Chamou-me também a atenção a possibilidade de exclusão social que os divertimentos dos parques oferecem. Há brinquedos que não oferecem segurança às pessoas obesas devido à dificuldade para acionar as travas (de segurança) ou para acomodação nos assentos em função do tamanho corporal. Felizmente, já há algumas montanhas russas e teatros com espaços destinados exclusivamente a indivíduos com maior tamanho corporal.

Pais obesos mórbidos. E os filhos? O que esperar?

                Há uma grande questão envolvida no processo de obesidade infantil: exemplo e modelo familiar. Se para um adulto que, a principio, possui consciência das consequências da obesidade, é complicado manter uma rotina ativa e dieta adequada, imagina para uma criança. Mais difícil ainda para uma criança que convive com familiares que possuem hábitos inadequados. Quando temos em casa uma criança ou adolescente com obesidade, hipertensão ou diabetes, há necessidade da mudança nos hábitos de toda a família. Não basta exigirmos da criança ou adolescente. O incentivo e modelo familiar é o determinante do sucesso nestes casos.

Muito alem do peso

                Em 2011 foi lançado no Brasil um documentário que discute o motivo pelo qual 33% das crianças brasileiras pesam mais do que deveriam. As respostas envolvem a indústria, o governo, os pais, as escolas e a publicidade. Com histórias reais e alarmantes, o filme promove uma discussão sobre a obesidade infantil no Brasil e no mundo. É um filme interessante que deveria ser incorporado como quadro regular de todas as escolas brasileiras. Sugiro a todos interessados nesse tema a conferirem o vídeo disponível para download gratuito no site http://www.muitoalemdopeso.com.br/.

1 Epidemia: se caracteriza pela incidência, em curto período de tempo, de grande número de casos de uma doença <http://pt.wikipedia.org/wiki/Doen%C3%A7a>.

2 Obesidade mórbida: Índice de Massa Corporal a 40kg/m2

3 Pesquisa de Orçamentos Familiares: IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Ministério do Planejamento OeG. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009: antropometria e estado nutricional de crianças, adolescentes e adultos no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE; 2010. Acesso em 22 de março de 2013. Disponível em http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/pof/2008_2009_encaa/pof_20082009_encaa.pdf

4 Excesso de peso: Índice de Massa Corporal superior a 25 kg/m2

5 Obesidade: Índice de Massa Corporal a 30 kg/m2

6 Organização Mundial da Saúde: Ono T, Guthold R, Strong K. WHO Global comparable estimates. New York: Global Infobase. 2005 ;  WHO Global Health Observatory, 2010 e WHO Global Infobase. 2013.

 

Sites interessantes

http://www.abeso.org.br/

http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs311/en/

http://veja.abril.com.br/noticia/saude/pesquisa-do-ibge-mostra-que-obesidade-e-epidemia-no-brasil
http://veja.abril.com.br/multimidia/infograficos/obesidade-no-brasil