– Professora, posso lhe falar uma coisa?

– Sem dúvidas.

– Achei que você fosse louca. Meu filho sempre entrou na piscina no meu colo e você pediu para eu soltar ele sozinho na água (com boias de braço). Posso lhe falar outra coisa?

– Claro!

– Há 12 anos frequento vários atendimentos e consultas. Esse atendimento de hoje foi o melhor da minha vida. Pela primeira vez meu filho foi capaz de brincar sozinho na vida dele, sem necessitar da minha ajuda.

Nadar

Com este diálogo gostaria de resumir o grande desafio e a imensa satisfação em dar aulas de natação para crianças e adolescentes com quadro motor grave. A maioria dos jovens que buscam inserção em academia ou escolas de natação não são aceitos, pois os responsáveis pelas instituições alegam necessidade de um profissional especializado em atividade física adaptada. Outra argumentação é a falta de professores para atender o jovem em aulas particulares (pois conforme as academias, não há como inseri-los em aulas com outras crianças).

O grande impasse no processo de ensino e aprendizagem da natação para pessoas com dificuldade motora, reside na conceituação e entendimento de nadar e não na quantidade de alunos ou especialização de um profissional. O termo Natação1 geralmente é confundido com o Esporte Natação (de rendimento). Na minha visão, e acredito que na compreensão de outros profissionais que aceitam o desafio de dar aulas para essa população, nadar é deslocar pela piscina, independente, da velocidade, direção, técnica ou necessidade de flutuadores e adaptações.

Pessoas com menor comprometimento motor (hemiplegia2 ou diplegia3), geralmente, apresentam facilidade para adaptar ao meio líquido e desenvolver uma forma de deslocamento ou estilo de natação. Desta forma, a inserção em aulas de natação regular é facilitada e promissora. Em contrapartida, indivíduos com comprometimento de três ou quatro membros podem apresentar dificuldade para seletividade ou recrutamento de músculos dos braços e pernas, como também da musculatura orofacial. Um simples mergulhar pode ocasionar engasgos com maiores complicações, por isso, o conhecimento acerca da disfagia5 é essencial nesses casos. Há necessidade de adaptações para reduzir as possibilidades de submersão involuntária do rosto e vias aéreas. Após a descoberta da melhor adaptação e posicionamento na piscina, uma pessoa com maior comprometimento motor pode sim participar de aulas de natação regular (com outras pessoas sem deficiência), exigindo apenas maior atenção por parte do professor, ou a entrada de um responsável na água (se o aluno ainda apresentar grande dificuldade para permanecer sozinho na piscina). Esta inserção é fundamental para a criança, em especial para aquela que não apresenta déficit cognitivo, auxiliando-a a socializar e interagir com seus pares.

 

Uma pequena dose de loucura

Anderson (adolescente do dialogo inicial desse texto) tem 12 anos, paralisia cerebral do tipo tetraplegia4, déficit cognitivo e visual. Frequentava rios próximos a sua residência, no interior de Manaus, sempre no colo dos pais. Após descobrir sua independência5 ao utilizar boias de braço e pés de pato, Anderson brinca nos rios com seus primos e amigos com maior satisfação e alegria.

Muitos ficariam chateados de serem taxados de loucos, mas deveríamos receber esses comentários como um elogio. Acredito que na vida há necessidade de uma pequena dose de loucura, mas ela deve vir sempre aliada ao bom senso, zelo, atenção e carinho. Ao oferecer esta dose de loucura somos, imensamente, recompensados com belos sorrisos e olhos esperançosos (de criança e pais).

Obs.: No próximo texto publicado pela autora no site Treino em Foco, serão abordadas questões relacionadas às adaptações, nível de independência e formas de deslocamentos para crianças, jovens e adultos com maior comprometimento motor.

1 Natação: capacidade do homem e de outros animais de se deslocarem através de movimentos efetuados no meio líquido, geralmente sem ajuda artificial.

2  Hemiplegia: alterações do movimento em um lado do corpo, como por exemplo, perna e braço esquerdos.

3 Diplegia: alterações do movimento de membros inferiores.

4 Tetraplegia: alterações do movimento nos membros superiores e inferiores.

5 Independencia: possuir liberdade e autonomia, no caso, para estar na piscina.